APRENDENDO COM A VALENTINA

Era um domingo chuvoso de fevereiro deste ano, quando meu celular tocou, por volta de 11 horas da manhã. Era uma moça que não conhecia, chamava-se Ana, e tinha conseguido meu telefone com uma amiga em comum. Tudo que Ana queria era que eu lhe ajudasse a encontrar um veterinário que pudesse lhe ajudar àquela hora.

Ana me explicou que tinha encontrado em uma calçada do centro da cidade (Florianópolis) um cãozinho em um estado muito ruim, com um ferimento grave na cabeça, mas tinha constatado que o pobrezinho respirava. Queria tomar uma atitude: ou tentar salvá-lo ou lhe dar um fim digno.

Passei-lhe o telefone de um veterinário que sabia que seria fácil de encontrar, e que com certeza poderia lhe ajudar.

Continuei meus afazeres, mas aquela história não me saía da cabeça.

Liguei de volta para Ana. Ela me disse que já tinha combinado encontrar o veterinário na clínica, mas tinha dificuldades com o transporte.

Me ofereci para ajudar. Peguei panos limpos e me dirigi ao centro da cidade, já me preparando para presenciar uma situação muito grave e dramática, como de fato ocorreu.

Chegando lá, eu e Ana embrulhamos o cãozinho e nos dirigimos ao veterinário. Era uma massa inerte, peluda, com a cabeça totalmente aberta, a ponto de podermos ver o crânio. Os olhinhos ficavam cobertos por aquela pele solta e pelo pêlo imundo. O máximo que saíamos é que era um cãozinho de pequeno porte, vivo, mas em muito sofrimento.

A primeira pergunta ao veterinário: dá para salvar? E ele respondeu positivamente.

A primeira providência, então, foi colocá-lo no soro, com medicamentos para fortalecê-lo e aplacar a dor, e em seguida remover o longo pêlo totalmente encardido, em busca de novas lesões.

Constatamos que se tratava de uma cadelinha de pouca idade.

Foi necessário sedá-la, pois a dor que sentia era muito forte, e o veterinário avisou que não poderia garantir de ela aguentaria a anestesia, pois o estado geral dela era muito ruim e ela estava muito anêmica, por causa de muitos carrapatos.

E essa foi sua primeira vitória.

A esposa do veterinário, chamada Paula, então sugeriu: “bem, se aguentou até aqui, que tal chamá-la de Valentina?”

E Ana, que àquelas alturas já tinha desistido da idéia de doá-la quando se recuperasse, aceitou na hora.

A pequenina já tinha um nome: VALENTINA.

E então começaram nossas lições de vida: para mim, para Ana, e até mesmo para Paula, já acostumada a ver tantas coisas deste tipo.

Aprendemos a não desistir NUNCA, da vida, de nossos objetivos... Aprendemos a nunca esmorecer diante de um obstáculo, e a viver a vida, dia após dia, removendo calmamente as pedras do caminho. E, claro, sem deixar de apreciar os milagres que a natureza nos proporciona.

Valentina ficou internada na clínica veterinária. Concluiu-se que ela deveria ter sido atropelada há pelo menos 24 horas, e sua recuperação estava apenas começando.

Além da cabeça totalmente aberta, que lhe deixava o crânio à mostra, a anemia era outro inimigo a ser combatido.

Uns cinco dias após sua internação fui visitá-la. E já não era aquela massa inerte. Tinha a forma de uma linda cachorrinha, e até podíamos acompanhar sua respiração.

Cada dia Valentina dava um passo adiante em sua recuperação, dava gosto acompanhar.

Ana, incansável, a visitava todos os dias, e me mantinha informada diariamente. E o veterinário e sua esposa, bem nem tenho palavras para descrever todo o cuidado e dedicação que tiveram com a Valentina.

Mais uma semana, e fiz nova visita. Valentina já ficava de pé. Ainda não conseguia deitar novamente, chamava a Paula, mas quando a vi em pé, sem perder o equilíbrio, me emocionei. Como podia aquela massa inerte, de duas semanas atrás, já estar de pé?

Alguns dias se passaram e recebi nova notícia: agora ela levantava e deitava sozinha. Mais alguns dias e já tinha ânimo para brincar e um apetite e tanto.

Ganhou um banho da Paula, com muito cuidado, pois seu ferimento na cabeça ainda não estava totalmente sarado, e muitos, muitos mimos.

Cerca de um mês depois Valentina teve alta, saiu andando, toda serelepe, de lacinho e tudo, com o enxovalzinho que tinha ganho na clínica: travesseiro, lençol, brinquedo e ração. Não teve absolutamente nenhuma seqüela. É uma filhotona muito brincalhona, que aos poucos conseguiu novamente acreditar no ser humano.

Mora com a Ana, sua mãe, seu pai humano e uma irmã canina.

Para mim foi uma lição de vida, mais uma dentre tantas que nossos amigos de quatro patas vivem nos ensinando.

Viva um dia após o outro, remova os obstáculos um a um, com serenidade, nunca desista do que almeja, conte com os amigos, viva o presente, deixe o passado para trás, e SEJA FELIZ!

Um abraço fraterno a todos,

Isabella

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